quinta-feira, 18 de maio de 2023

Dia da Espiga




Todos os anos é uma surpresa. Numa manhã de uma quinta-feira de Maio a convocar Verão e manga-curta, saio à rua e por todo o lado andam pessoas a vender ramos de flores camponesas. Lisboa amanhece enfeitada de ramalhetes dourados com salpicos vermelhos. 

Dia da Espiga. Em muitas cidades do Ribatejo, do Alentejo ou nas redondezas do Tejo, a vida suspende-se. Aos quarenta dias contados a partir do domingo de Páscoa é quinta-feira da Ascensão, feriado e dia santo de guarda. Diz-se que é o dia em que mundo pára e que há uma hora em que os pássaros não vão aos ninhos, as águas dos ribeiros não correm, o leite não coalha e o pão não leveda. As pessoas vão aos campos apanhar flores para fazer o ramo que as protegerá o ano inteiro.

Espigas para garantir o pão.

Malmequeres para abonar ouro e prata.

Papoilas para afiançar amor e vida.

Ramos de oliveira para o azeite, a paz e a luz.

Videiras para bom vinho e alegrias.

E alecrim para forças e saúde.

Tudo atado com um cordel e depois guardado atrás da porta à espera do substituto do ano que vem que trará novas bonanças. Assim se cumpre a espiga.

Mas em Lisboa a história é outra.

Não há papoilas nem videiras nos jardins. A espiga chega em carrinhas, já em ramos atados e sai para as ruas em cestos nas mãos de vendedores.

E é vê-los a vender às raparigas esperançosas de um ano próspero e amoroso. E é vê-los a vender às senhoras que desejam pôr comida na mesa de casa todo o ano. E é vê-los a circular pelas mãos das lisboetas como promessas. Pactos que ficam entre a compradora e a espiga. Dois euros e meio de alento. Um alento que se põe atrás da porta e em breve estará seco. Mas não importa. Porque o que conta é a intenção. Durante uma quinta-feira inteira Lisboa fica simples e campesina, de flor na orelha.

Para surtir efeito tem que ser dado. Nem que seja na batota do compras o meu que eu compro o teu com as colegas de trabalho. Que bom que é voltar para casa de ramo de flores do campo na mão, encaixá-lo no prego atrás da porta e sussurrar-lhe quando temos a certeza de que ninguém está por perto: lembra-te sempre do que prometes.


quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

Deixar de Fumar- Volume III

 Já lá vai meio ano e mais três dias.

Está a ser muito difícil e ainda assim é mais fácil do que a minha imaginação me fazia prever. Como quase sempre na vida.


A imaginação é uma exagerada.

quarta-feira, 24 de agosto de 2022

Deixar de fumar- Volume II

 Não sinto falta de estar a fumar. Já consegui até ficar a ver as estrelas no 15 de Agosto ou sentar-me a beber um café numa esplanada e obrigar-me a ficar uns 10 minutos ali sentada a ver o mundo a passar.

Ainda sinto falta de dividir os meus dias em pausas para cigarros.  Não será ao acaso que pausas e passas são palavras tão parecidas.

Passava as pausas com passas. 

Ainda passo as passas do Algarve.

quinta-feira, 18 de agosto de 2022

Deixar de fumar- Volume I

 

Deixei de fumar e deixei de me sentir.

Faz hoje um mês que deixei de fumar. Piso areias movediças ao escrever sobre isso. Piso areias movediças só por estar a escrever. Não me lembro de mim a escrever sem ser fumadora. Nunca fui escritora, mas fui, 30 anos, fumadora.

Dizem-me que serei sempre fumadora.

Nenhuma palavra me define tão bem como fumadora.

Fumadora.


quarta-feira, 29 de junho de 2022

Peixinhos da horta.


 

Lisboeta que é lisboeta péla-se por um peixinho fritinho com um arrozinho malandrinho. Assim tudo em diminutivos. Quanto mais pequenininho melhor. Daqueles peixinhos que não chegam para tapar a cova de um dente e com nomes que podiam ter sido dados por meninos que aprenderam a falar há pouco tempo. Ele é pilim, jaquinzinho, petinga, carapauzinho e pescadinhas de rabo na boca.

Comem-se de meia dentada, com cabeça e espinha incluídas e acompanham com um arroz de tomate, de feijão ou de grelos a correr pelo caldo. Uma taça de vinho e está composto um dos repastos mais tradicionais da cidade.

Porém, estes lisboetas são uns criativos, e, há uns séculos, quando o peixe não era para qualquer mesa, criaram uma alternativa mais em conta que se tornou divisa da culinária alfacinha. Chamam-lhe peixinhos da horta.

De acordo com os Doze Meses de Cozinha, uma das bíblias culinárias que há na estante da minha mãe, os peixinhos da horta são dois feijões-verdes fritos envoltos num polme de farinha, gema de ovo, claras em castelo, sal e pimenta. Lembro-me de ser miúda e folhear aquelas páginas de papel de boa gramagem e fotografias apetecíveis e pensar que um dia faria aqueles tais de peixinhos da horta. Coisa que ainda não aconteceu.

Se parafraseamos Camões tantas vezes dizendo que Portugal deu novos mundos ao mundo, também é incontestável que levámos novos sabores aos quatro cantos do planeta. Maria de Lourdes Modesto atesta que no século XVI, quando chegaram os primeiros Jesuítas portugueses ao Japão, encontraram um povo que não percebia nada de fritos. Quando chegou a Quaresma, os missionários respeitaram o período de abstinência de carne e lá fritaram uns jaquinzinhos e uns peixinhos da horta que deram a provar aos japoneses. E não é que eles gostaram?

O sucesso foi tal que originou um dos pratos japoneses mais afamados. A tempura come-se hoje em todo o lado. O nome vem da expressão latina que designa a Quaresma, ad tempora quadragesimae, que os portugueses naquela época tinham simplificado para Têmporas. E se os japoneses diversificaram a utilização do polme delicioso em vários outros alimentos, a verdade é que não fazem tempura com carne.

Cá por Lisboa, ovo e farinha só se põem à volta do que é pescado. Refeição que é refeição dá aos vegetais o papel secundário e deixa brilhar o peixe. Nem que seja o peixinho da horta.


sexta-feira, 17 de junho de 2022

Camões.

 


Os pontos de encontro são sempre pontos de partida. O ponto onde coincidimos com alguém num tempo certo para depois seguirmos juntos, ou separados. Todas as cidades têm um ponto de encontro. Todas as cidades têm um ponto de partida. Todas as cidades têm um ponto de partida que começa num ponto de encontro.

 

O Camões é o ponto dos encontros de Lisboa. Ali, onde o Bairro Alto arranca para subir a colina, onde o Chiado começa a sua descida até à Baixa, onde a Rua do Loreto avança sobre o Combro e a Rua do Alecrim flutua até ao rio, cruzam-se os percursos. Dali se continua para novos trilhos. O Camões é o ponto de partida de Lisboa. Quem nunca marcou encontro ali para depois ir jantar ao Bairro Alto, desfilar na Rua Garrett ou ir beber um copo à Bica que atire a primeira pedra.

 

O Camões é o único nome da toponímia lisboeta a que, sendo uma praça, todos chamam largo. Quase ninguém vai à Praça de Luiz Vaz de Camões. Agora o Largo do Camões já todos atravessam. Ou por lá se encontram. É que assentar praça é diferente de passar ao largo. E ir chatear o Camões todos vamos de vez em quando, mas não por muito tempo. Que por norma no Camões não se está. Espera-se. Espera-se pelo amigo, pelo 28 ou pela sineta do pastel de nata. Faz-se horas para estar noutro lugar.

 

Boas esperas que alcançam o ritmo da cidade. O Eléctrico 28 a circundar a linda plataforma de calçada portuguesa. A estátua de Camões com pombas que revezam o poleiro da sua cabeça para espreitarem quem vem do Chiado. Os alunos de Erasmus a conviverem à volta do pedestal. A passadeira mais insubordinada de Lisboa em que os carros e os peões têm um acordo secreto para ignorar o semáforo. A conduta de ar que faz os vestidos das meninas esvoaçarem e os cabelos perderem o arranjo. Os prédios pombalinos com as fachadas limpinhas. Os encontros e as partidas. Os olás e as despedidas. Cada metro quadrado, um postal. Cada transeunte, um poema.

 

A Praça de Luiz Vaz de Camões foi inaugurada em 9 de Outubro de 1867. A estátua e o pedestal do poeta têm 7 metros e meio, são da autoria de Victor Bastos e foram custeadas por subscrição pública. Nesse dia, toda a Lisboa foi ali dar. Até os trabalhadores das fábricas da capital tiveram folga para ir ver El-Rei D. Luís descerrar o pano que cobria a grande figura de bronze.

 

 

Desde então o poeta da nação tem visto lá do alto a cidade a mudar. Mudam as modas e os costumes, mudam os transportes, os sons, os comércios e os cheiros. Chegam os turistas e partem os habitantes. Mas Lisboa, que da lei da morte já se libertou há muito tempo, continua circulando num vai e vem de gente que, mais tarde ou mais cedo, há-de ir ter à hora marcada ao Camões.

segunda-feira, 3 de maio de 2021

E que mais?

E que mais há para escrever sobre a  pandemia?

Agora que a vacina já está aí a ser inoculada em força e que quase podemos voltar a respirar fundo, escrevo sobre o quê?

Não que eu tenha escrito tudo aquilo em que pensei e tenha abordado todos os temas e ângulos. Porém estou farta. Estamos todos fartos. Já não tem piada e já não nos comove. Basta.

Somos todos melhores padeiros, temos vasos de plantas verdejantes em todas as divisões, um tomateiro na varanda e as cuecas estão ordenadas por cores dentro das gavetas da cómoda.

Preferimos as máscaras cirúrgicas e damos primazia ao álcool sem gel. Ninguém gosta do cheiro do desinfectante das bombas da Repsol. 

Continuo. Recolho textos antigos, vou aos velhos cadernos, pego em frases que andam soltas em costas de contas de supermercado e em blocos de notas do telemóvel e continuo.


Continuo.


sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

A persistência da memória.


 

Àqueles que se preparam para votar no candidato troca-tintas, peço que façam desse acto um instante inesquecível das vossas vidas. Fixem-no. Apontem na vossa memória o dia em que agarraram no vosso sentido de humanidade e o esconderam no fundo de uma gaveta.

 

Que a memória não vos falhe.

 

Para aqueles que resolveram perder a vergonha e dizer que não têm vergonha de aceitar ideias vergonhosas, peço que guardem o momento. Mais tarde, quando nem conseguirem olhar-se ao espelho, saberão qual foi o exacto momento em que, de acordo com as categorias criadas pelo candidato troca-tintas, deixaram de ser portugueses do bem.

 

Que a memória não vos falhe.

 

Quando a cruz que colocarem no racista, xenófobo, machista, misógino, homofóbico, fascista, mentiroso, populista, rasteiro e troca-tintas, só para lembrar, vos pesar na consciência, lembrem-se que foram vocês que a traçaram.

 

Que a memória não vos falhe.  


domingo, 13 de dezembro de 2020

Das circunstâncias.


 

Nunca tive jeito para conversas de circunstância. Esforço-me sempre demais para evitar que o silêncio abalroe o diálogo. Quando ele chega, sinto que tenho obrigação de resolver aquele desconforto com rapidez.

Dantes, quando a conversa chegava ao limite do «E esta chuva que nunca mais passa?», começava a suar e a procura mental de assuntos comuns com o meu interlocutor disparava em várias direcções. O que é que eu sei da vida desta pessoa que posso aqui introduzir logo a seguir. Ou, com mais frequência, que desculpa é que eu tenho para sair daqui a correr assim que responder: «Já se sabe, é o tempo dela.»

 

O que os filósofos, os sociólogos, os cientistas e os optimistas, que bem se esforçam para descobrir as mudanças positivas que a pandemia nos pode trazer, ainda não ajuizaram é que a verdadeira revolução está nas conversas sobre o tempo. Deixámos de empatar encontros ocasionais com canícula ou pluviosidade. Os meteorologistas que deixem de dar nomes a tempestades e depressões. O verdadeiro furacão das conversas chama-se COVID.

 

A pandemia trouxe possibilidades quase infinitas, fazendo com que mutismos súbitos se transformem em amenas cavaqueiras. O difícil é escolher. Podemos começar por nos mostrar atenciosos e perguntar se a saúde vai bem e sem sustos. Daí a falar sobre os testes é um saltinho. Custou, não custou. Chorou, não chorou. Um cheirinho de subida do número de contaminados, transportes públicos, teletrabalho, economia, restaurantes e, para terminar com ânimo, a vacina. E está uma tarde bem passada. Até um dia destes que, como bem sabemos, será o dia em que nos voltarmos a encontrar por acaso.

 

Se, depois de nos safarmos com distinção, o nosso interlocutor avançar, entusiasmado porque afinal tínhamos muitos assuntos para pôr em dia, com um cafezinho em breve ou, quem sabe, um jantarinho, eis que acontece magia de novo. Bem que gostávamos, mas, já se sabe, há que recolher. Não é por mim, é por ti. Temos que nos proteger uns aos outros e o melhor é não arriscar. Mas, quando isto tudo passar, é certo que marcamos qualquer coisa. Vamos falando. Quem é vivo sempre desaparece.

domingo, 6 de dezembro de 2020

A rua.


 


Eram treze horas e três minutos quando virei a esquina que dobra do largo para a minha rua. Os dois primeiros edifícios de cada um dos lados desta rua onde eu moro são, desde há muitos anos, ruínas. De um lado, os falidos e duas vezes ardidos Armazéns do Conde Barão. Com as entradas todas tapadas com tijolos, servem de suporte a cartazes que anunciam filmes mais a dar para o europeu e independente, exposições mais a dar para o alternativo e algumas palavras de ordem rabiscadas nos espaços que sobram.


Do outro lado, o decadente e também entijolado Palácio do Conde-Barão. A diversidade de nomes não é muito grande aqui na zona. Mais se comprova se vos revelar que o largo a que me refiro no início se chama Largo do Conde-Barão. No palácio não se colam cartazes. Deverá existir entre os profissionais de colagem algum código deontológico que não lhes permite esfregar cola debalde em pedras de lioz. Já os profissionais do rabisco, uma espécie notoriamente menos preocupada com a preservação da beleza mesmo que em declínio, não se preocupam assim tanto.


Eram treze horas e três minutos quando me encontrei desabrigada e sozinha entre estes dois edifícios ocos. Fiquei ali, sem conseguir dar mais passos, a encarar os ausentes. Nem movimento, nem som. Moro aqui há muitos anos. No princípio esta rua metia medo por ser escura e só ter prédios velhos, motivo de conversa séria da minha mãe sobre não ser um bom sítio para viver, depois foi ficando cheia, negócios novos, turistas e até cafés que servem tostas de abacate e meias-de-leite com nomes italianos e desenhos na espuma. Porém, a não ser nos tempos em que se podia regressar a casa a altíssimas horas da noite, nunca a tinha assim encontrado. Não se via ninguém. Nem sequer lá ao fundo onde a rua cruza com outras ruas mais movimentadas. Foram só alguns segundos. Mas foram os suficientes para entender que, desta vez, veio mesmo mal ao mundo.


Neste ano, em que tudo correu como o inesperado, a minha rua vazia a um sábado à hora de almoço não é um fenómeno digno de assunto, é só um detalhe sem interesse para a história que se contará no futuro. Mas é o detalhe que me eriçou os pelos dos braços e fez com que me caíssem algumas páginas de poesia barata em cima.


Tive logo ali a certeza de que nunca esqueceria aquele momento curto e comum nos dias que passam. Recolher obrigatório, rua vazia. Contudo era uma imagem nunca vista e guardada para sempre no meu álbum mental. Aí e no álbum de fotografias do meu telemóvel. Como todos sabemos, há uma pandemia mais antiga entre nós. É o vírus fotográfico. Se não fotografarmos, não aconteceu. Assim, apressei-me a arquivá-la entre as 7 488 imagens inesquecíveis que trago na mala. Eram treze horas e três minutos.


domingo, 15 de novembro de 2020

Dos pesadelos.


 




Levo a mão à cara e apercebo-me de que estou sem máscara no meio da Rua do Carmo. É sábado de manhã. Há muita gente a circular e eu sou a única pessoa de cara descoberta. Filas infinitas à porta das lojas para comprar roupas, sapatos, bugigangas e outros os bens de primeiríssima necessidade, todos a cumprir as normas da DGS, máscara na cara e álcool-gel na mão. Todos, menos eu. Por mais que eu peça, ninguém me empresta uma máscara. Não me deixam entrar em lado nenhum para comprar uma. Todos os dispensadores à porta das lojas estão vazios. Como é que eu vim aqui parar sem estar devidamente apetrechada para cumprir a lei?  Como é que eu saio daqui?

 

 

Fazes os mesmos gestos suaves e tens o mesmo jeito no cabelo, ali no lado esquerdo, por cima da testa, uma espécie de inversão de marcha capilar. Eu, que passei dias a olhar-te pela metade, agora não conheço essa cara, que não foi a que eu criei para ti. Desenhei-te com o meu lápis mental, com outro sorriso, outro queixo e outra expressão de seriedade. O que faço ao outro rosto agora? Aquele que não existe a não ser para mim. Agora já não consigo dizer-te as mesmas coisas que te dizia antes, porque afinal não te conheço. Tiraste a máscara e vi uma face que não era a tua.

 

 

A Selecção Nacional está a perder com a França, mas o silêncio não é por estarmos a roer as unhas em frente ao ecrã da televisão. No centro da cidade não se houve nada. Ninguém regressa a casa na noite calada. Não há passos, nem vozes, nem motores. Recolhemos e estamos atordoados sem saber o que fazer às palavras. Já não queremos usá-las em videochamadas nem em longas conversas telefónicas. Já não há novidade em nada do que está a acontecer. Estamos em normalidade obrigatória.


domingo, 25 de outubro de 2020

Das saudades.

 


Dos amigos a jantar cá em casa. Todos encostadinhos uns aos outros. Ombros com ombros, doze pessoas à volta de uma mesa que só dá para seis. Das cotoveladas sem ter que pedir desculpa. De seres-humanos devidamente calçados e espalhados em pequenos grupos entre a sala e a cozinha. Enquanto uns abrem as garrafas, alguém mexe o tacho.

 

De beber o vinho do teu copo sem pensar.

 

De baralhar os copos e provar o peixe de prato alheio. Com garfo alheio. Das gargalhadas com a boca bem aberta, daquelas que mostram a dentição quase toda, das exaltações políticas que fazem soltar gafanhotos, das proximidades dos rostos para segredos e dos abraços espontâneos. De passar a mão pelos ombros, de sacudir uma pestana ou de limpar uma lágrima na face de um amigo.

 

De estender a mão.

 

De o álcool só servir para assar chouriças. De precisar de álcool para assar chouriças e não haver cá em casa porque se evaporou da garrafa esquecida no fundo da prateleira. De beber álcool sem hora limite, à noite, na rua, no aperto das portas dos bares ou na plateia de um concerto.

 

De cheirar a nuca dos bebés e de lhes repenicar beijinhos nas bochechas.

 

De não me perturbar com os abraços nos filmes. De dar o braço e de dar uma mãozinha. De respirar fundo. De forçar a entrada num elevador cheio de gente. De dar uma espreitadela ao livro da pessoa que vai ao meu lado no autocarro. De ler nos lábios. De me sentir sozinha no meio de uma multidão.

 

De abraçar os meus pais.


domingo, 5 de julho de 2020

Adeus a um desconhecido.





«Will you recognize me?
Call my name or walk on by»
Simple Minds, Don't You (Forget About Me)


Quem nunca fingiu que não viu alguém conhecido na rua que atire a primeira pedra. Foca-se o olhar num ponto imaginário, jamais se desvia e desaparecemos do campo de visão do outro o mais depressa que conseguimos.
Quem nunca percebeu que alguém fingiu que não o viu na rua, ficou agradecido e até ajudou, focando o olhar num ponto imaginário, que atire uma pedra também.


Esses tempos terminaram. As máscaras vieram acabar com momentos embaraçosos e com algumas frases clássicas. «Passou por mim e fingiu que não me viu» e «Mudou de passeio só para não me falar» vão sair de circulação.
Com a cara tapada e com as expressões bloqueadas, quem precisa de disfarçar? Até podemos olhar nos olhos e ficar em silêncio. E se o outro nos vier pedir batatinhas, podemos sempre dizer que não o estávamos a reconhecer. A culpa não é nossa, é deste pedaço palerma de pano, até parece que nos tolda os sentidos.


Dá uma sensação de liberdade tão boa não ter que cumprimentar o vizinho do 4.º dto. e ficar duas horas a ouvi-lo queixar-se das infiltrações ou escapar àquela conversa chata que vai acabar invariável e tragicamente num «Quando jantamos?», não dá?
Só que não. As máscaras trazem distâncias e dúvidas. Será que conheço? Será que é da televisão ou trabalha comigo? Aqueles olhos não me são estranhos. Diria que está a sorrir-me, mas pode ser só miopia. Tenho quase a certeza que andei com ela no Liceu, está mais gordinha. Tenho quase a certeza que é ela. Quase. Se não ia falar-lhe.


Resolvi pois que não vou passar por amigos sem os reconhecer. Quem me fixar por mais de três segundos leva com o meu olá e com um sorriso invisível por trás do pano palerma. Pelo sim, pelo não, para não deixar que os outros se tornem translúcidos, vou andar pela rua a dizer adeus a desconhecidos.





domingo, 14 de junho de 2020

Santo António sem Lisboa.



Ai que saudades do cheiro das sardinhas no ar. Ai que são as que sabem melhor, assim deitadas em cima de uma fatia de broa para absorver o molho. Que triste que é este ano não haver cerveja a verter dos copos cambaleantes e xixis furtivos em becos ou entre automóveis, não é?

Pois, para mim, não. Fiz máquinas de roupa sucessivas. Estendi os lençóis na varanda e, quando secaram, continuavam a cheirar a detergente e amaciador e espalhavam campos de flores pela casa. Nada de odores malignos de grelhas a ambientarem os compartimentos. Nada de pivete a urinol aqui na rua, nem copos de plástico na entrada da porta. E a broa, só engorda.

Sentem falta de manjericos cheirosos com quadras populares, das multidões nas ruas estreitas, das luzes dos arraiais e dos balões a dançarem na brisa nocturna?

Pois eu não. Os manjericos são plantinhas fraquinhas e cheias de caprichos: só se podem regar ao luar, só se podem cheirar com a mão e secam ainda antes do mês acabar. Quem não gosta de descer a Bica de aperto em aperto sem poisar os pés no chão? E que dizer daquelas luzes irritantes e frouxas que não permitem distinguir os ébrios dos sóbrios? E os balões amolgados soam a papel engelhado.

Sentem falta das marchas populares? Das cores, das roupas, dos brilhos e das marchinhas a rimar com Lisboa e com o Tejo?

Pois eu não. Horas de espera na Avenida para acabar sempre atrás de alguém muito alto. Infinitas transmissões televisivas e marchantes com coisas estranhas na cabeça e nas saias. A minha marcha é mais linda do que a tua. Não é? Confirmo amanhã no telejornal porque agora não oiço nada.

Sentem falta das barraquinhas, das bancadas mal-amanhadas, das imperiais fresquinhas, de gente alegre, dos bailaricos, de sorrisos abertos pelo álcool, de ruas a transbordar de alegria, do Verão a chegar e modinhas pimba até o sol nascer? Sentem falta de ir com a amiga querida deitar moedas à estátua do Santo António e pedir desejos, de descer da Cerca Moura ao Campo das Cebolas e encontrar amigos a cada passo?

Pois eu não. Eu prefiro um dia igual aos outros. Desbotado, limpo e silencioso. Este tom asséptico que a cidade ganhou só traz aquela beleza triste que apela à escrita de letras de fados. E quem prefere sol e sardinhas a isto? Pois eu não.


 With a little help from my friends.

domingo, 24 de maio de 2020

A primeira semana.



É uma bica curta, se faz o favor. Na chávena da porcelana mais grossa que tiver aí a aquecer por cima da máquina. Desculpe, pode bater com o pires no balcão para ouvirmos que é de loiça e depois, se não for pedir demais, atire-lhe com a colher para se escutar o som metal a bater no vidrado? Muito agradecida.

Quero meia dose de filetes com arroz de tomate. Para comer aqui. Ali, melhor dizendo, corajosamente na esplanada. Sim, sou só eu. Eu e comida que não foi feita por mim ou que não vem suada e mole numa caixa de plástico. Para beber? Champanhe, por favor. Impõe-se um brinde.

Uma cotovelada. Uma imperial. Uma distância social suficiente para desvendar o rosto a rostos amigos. O líquido gelado a descer pela garganta com a sensação de libertação que o tempo quente traz. Tal como o Verão sabemos que este desconfinamento é efémero. Vamos desconfiando e desconfinando.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Das máscaras.



Sempre pensei em máscaras como objectos transitórios. Agora, durante uns momentos, escondo o meu rosto porque quero fingir que sou outro. Temporárias e ocasionais, disfarçam e dissimulam. Ou simulam.

A transitoriedade já não é o que era. Agora as máscaras servem para transitarmos entre nós. São separadores de pessoas e bloqueadores de expressões.
Agora, durante uns tempos, protejo-me daquilo que anda aqui no ar entre tu e eu.

Os olhos afinal não são o espelho da alma porque não mostram tudo. Há olhos que sorriem e olhos que se espantam. Mas nunca saberemos em que estado estão as almas se não virmos o seu reflexo a corpo inteiro. Como os lábios se movem, como o nariz se franze, como as bochechas oscilam e como o queixo sobe.

 Como poderemos agora deitar a língua de fora a alguém? Sorrir com os dentes todos ou ficar boquiaberto não vale nada nos dias que correm.
É certo que franzir o sobrolho será sempre tido em conta, mas, como distinguiremos as lágrimas de crocodilo das genuínas?

Como em tudo, há vantagens. As emoções estão previamente escondidas e não temos que andar por aí a oferecer sorrisos amarelos. Podemos sempre fingir que não reconhecemos alguém, evitando conversas indesejadas, e estamos sempre preparados para fazer um assalto.

Quem vê máscaras não vê corações. Passaremos os próximos tempos a falar com estranhos.


domingo, 17 de maio de 2020

Telescola.




Na escola da sede de freguesia havia aulas da Escola Primária de manhã e da Telescola de tarde.
Durante os quatro anos que a escola primária durou, todos os dias olhava a televisão sobre uma prateleira na parede do lado direito do quadro de ardósia. Porque é que nós não podíamos ver televisão na sala de aula e os rufias da parte da tarde podiam?

Os rufias da parte da tarde não eram rufias. Eram só crianças mais altas e mais velhas do que nós.

Na sala existiam objectos que eram só da telescola que nos estavam interditos. A saber: o armário e a televisão. O armário fechado à chave dava-me desassossego. Se tinham uma televisão, que outros objectos extraordinários esconderiam dentro daquele móvel? Se o tinham encerrado, só podiam estar lá coisas preciosas.

Os rufias da parte da tarde não eram rufias. É certo que, às vezes quase sempre, nos acertavam com a bola quando contornávamos o campo de futebol que se localizava entre a porta do edifício e o portão da escola. É certo que se riam de nós por sermos mais pequenos. Mas eram só crianças ainda.

Dos monitores da telescola, alguns eram os padres da freguesia. Chegavam de batina negra e cabeção branco e atravessavam o recreio, altivos e agigantados pela vestimenta. Eu tinha medo deles e baixava os olhos quando nos cruzávamos. Na verdade nunca me fizeram mal nenhum. Às vezes até sorriam.

Os rufias da parte da tarde não eram rufias. Eram crianças que, por viverem em zonas rurais e mais desfavorecidas, tinham como única solução para cumprir o ensino obrigatório, estudar na telescola. Muitas tinham que ajudar os pais que não tinham dinheiro para os mandar de autocarro para a cidade e frequentar o Ciclo Preparatório.

Veio finalmente um dia, o único, em que a televisão foi ligada da parte da manhã. Foi no dia 12 de Junho de 1985. Nesse dia foi aberta uma excepção para todos vermos Mário Soares, no Mosteiro dos Jerónimos, a assinar a entrada de Portugal na CEE. Foi um dia excitante. Todos tínhamos televisão em casa, porém, poder ligar a televisão da escola, era o acontecimento do ano lectivo. Mas, por azar, logo nos havia de calhar ver políticos a rubricar papéis.

Os rufias da parte da tarde não eram rufias. São a prova de que o país já foi mais desigual do que é nos dias que correm.

Lembro-me de ver a telescola nas tardes de chuva enquanto esperava pelos desenhos-animados. Os monitores ensinavam em directo dos Estúdios do Monte da Virgem.  Por estes dias, também se ensinam as nossas crianças pelo ecrã da televisão. Se a frequência da telescola antiga evidenciava um fosso que alguns meninos não conseguiam atravessar, a telescola de hoje é uma agregadora social. Se é verdade que a telescola antiga, por ser ensino com bons resultados, ajudou muitas crianças a ultrapassar o tal fosso, hoje ajuda a todos.
Fico comovida e cheia de alento por ver como professores, sem preparação para darem aulas para um país inteiro e pela televisão, se chegam à frente e avançam de peito feito para que nenhuma criança fique para trás.

domingo, 10 de maio de 2020

Dos hábitos- Tomo II



À noite deixaram de se ouvir os automóveis a passar. Os grupos deixaram de propagar risotas alcoólicas, eferreás e outras bazófias pelas ruas aqui do bairro. Agora a passagem do carro do lixo soa agradavelmente a hora de ponta. O silêncio nocturno, dantes tão desejado, não me ajuda a adormecer.

Os encontrões já não são o que eram. Esbarrávamos com alguém na rua, pedíamos as desculpas, sinceras ou amareladas por um sorriso, e seguíamos pela vida. Agora, ao virar de cada esquina pode estar um inimigo desmascarado a expirar perdigotos contaminados e que vai embater de frente connosco. Agora passo ao largo. As esquinas já não se dobram, arredondam-se por alto.

As chávenas de loiça grossa tão aquecidas que queimavam os lábios e a língua ao primeiro gole de café. Os balcões com as vitrinas cheias de bolos que se abalroavam com cremes e açúcares finos. O gosto da bica a prolongar-se na boca e o resto do corpo a agradecer tamanha felicidade matinal. Não há cápsulas que me valham. Descafeinei.

Apesar dos novos hábitos se estarem a instalar continuo a gostar dos domingos de chuva. A ilusão de que o único motivo para ficar em casa se deve ao desconforto húmido que cai lá fora é apaziguadora. Domingos chuvosos e cinzentos no sofá, olhando os pingos que se vão colando nos vidros das janelas, são simétricos aos dos tempos normais.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Primeiro de Maio.



É feriado porque o meu pai faz anos.
Como qualquer criança, se o meu pai dizia que era feriado porque era o dia do seu aniversário, é porque era verdade. Quando os outros meninos da escola me diziam que era o Dia do Trabalhador, só reforçavam a minha crença. O meu pai era trabalhador.


A semana que passou é a aquela sobre a qual não sei escrever sem ser piegas.  
Tudo porque o 25 de Abril é o meu dia preferido de todos os dias e porque o 1.º de Maio, para além de ser o dia do meu pai, é o dia em que a luta continua.

Olho para Salgueiro Maia que olha para a máquina fotográfica de Alfredo Cunha. Está em frente a uma chaimite no Largo do Carmo. Vejo o olhar mais meigo com que alguém encarou este país.
Comovo-me.

Penso em quem não pode estar em teletrabalho. Naqueles cujo trabalho está parado e naqueles cujo trabalho não pode parar. O Sérgio Godinho canta-me sobre a paz, o pão, a habitação, a saúde e a educação.
Comovo-me.

Oiço os passos que anunciam a Grândola, lembro-me de cravos vermelhos na lapela do casaco do meu pai, um bravo homem percorre a Avenida da Liberdade com a bandeira nacional, em cada varanda há um amigo a cantar. Um cravo repousa solitário numa jarra.
Comovo-me.

O sol de Maio leva os meus pés descalços para a relva em frente à casa dos meus pais. Dou um abraço longo ao meu pai como se dá aos aniversariantes. Depois de lhe cantarmos os Parabéns, ele desembrulha livros sobre a Revolução. Sempre as mesmas prendas. As que ele gosta mais.

Abro os olhos.
Comovo-me mais.
Parabéns.

domingo, 19 de abril de 2020

Dos hábitos- Tomo I


Batatas e cebolas: podem-se contar pelos dedos das mãos as vezes que as comprei. Sempre trouxe da minha terra. Nos primeiros anos cultivadas pela enxada do meu avô. Depois de ele morrer esse testemunho passou para as mãos do meu pai. Sempre da Várzea, com amor. Dir-se-ia que, num frente a frente com os expositores do supermercado, eu saberia escolher melhor. Mas só me sinto perdida na secção de legumes.


Só vou ao trabalho uma vez por semana. Agora demoro exactamente nove minutos de carro até à Penha de França, destronando assim os recordes de todos os Agostos. O tempo de ouvir duas músicas e meia no rádio. As passadeiras sem ninguém para as atravessar e sem trânsito parado no Terreiro do Paço. Um percurso desamparado na cidade despovoada. Sempre na expectativa de ter um carro à minha frente e que esse carro avarie ou vá abaixo para me subir à cabeça uma irritação. Assim conferiria alguma legitimidade a esta vontade de pôr o dedo na buzina e de dizer uns palavrões.


Todas as noites antes de ir dormir dirijo-me à porta de casa para verificar se está com as voltas da fechadura todas voltadas para o rio e se a corrente está bem colocada. Todas as noites desisto antes de lá chegar. Fechadura que não foi aberta não pode estar mal fechada.

Dia da Espiga

Todos os anos é uma surpresa. Numa manhã de uma quinta-feira de Maio a convocar Verão e manga-curta, saio à rua e por todo o lado andam pess...