domingo, 10 de maio de 2020

Dos hábitos- Tomo II



À noite deixaram de se ouvir os automóveis a passar. Os grupos deixaram de propagar risotas alcoólicas, eferreás e outras bazófias pelas ruas aqui do bairro. Agora a passagem do carro do lixo soa agradavelmente a hora de ponta. O silêncio nocturno, dantes tão desejado, não me ajuda a adormecer.

Os encontrões já não são o que eram. Esbarrávamos com alguém na rua, pedíamos as desculpas, sinceras ou amareladas por um sorriso, e seguíamos pela vida. Agora, ao virar de cada esquina pode estar um inimigo desmascarado a expirar perdigotos contaminados e que vai embater de frente connosco. Agora passo ao largo. As esquinas já não se dobram, arredondam-se por alto.

As chávenas de loiça grossa tão aquecidas que queimavam os lábios e a língua ao primeiro gole de café. Os balcões com as vitrinas cheias de bolos que se abalroavam com cremes e açúcares finos. O gosto da bica a prolongar-se na boca e o resto do corpo a agradecer tamanha felicidade matinal. Não há cápsulas que me valham. Descafeinei.

Apesar dos novos hábitos se estarem a instalar continuo a gostar dos domingos de chuva. A ilusão de que o único motivo para ficar em casa se deve ao desconforto húmido que cai lá fora é apaziguadora. Domingos chuvosos e cinzentos no sofá, olhando os pingos que se vão colando nos vidros das janelas, são simétricos aos dos tempos normais.

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