À noite deixaram de se ouvir os
automóveis a passar. Os grupos deixaram de propagar risotas alcoólicas,
eferreás e outras bazófias pelas ruas aqui do bairro. Agora a passagem do carro
do lixo soa agradavelmente a hora de ponta. O silêncio nocturno, dantes tão
desejado, não me ajuda a adormecer.
Os encontrões já não são o que
eram. Esbarrávamos com alguém na rua, pedíamos as desculpas, sinceras ou
amareladas por um sorriso, e seguíamos pela vida. Agora, ao virar de cada
esquina pode estar um inimigo desmascarado a expirar perdigotos contaminados e que
vai embater de frente connosco. Agora passo ao largo. As esquinas já não se dobram,
arredondam-se por alto.
As chávenas de loiça grossa tão aquecidas
que queimavam os lábios e a língua ao primeiro gole de café. Os balcões com as vitrinas
cheias de bolos que se abalroavam com cremes e açúcares finos. O gosto da bica
a prolongar-se na boca e o resto do corpo a agradecer tamanha felicidade
matinal. Não há cápsulas que me valham. Descafeinei.
Apesar dos novos hábitos se
estarem a instalar continuo a gostar dos domingos de chuva. A ilusão de que o único
motivo para ficar em casa se deve ao desconforto húmido que cai lá fora é
apaziguadora. Domingos chuvosos e cinzentos no sofá, olhando os pingos que se
vão colando nos vidros das janelas, são simétricos aos dos tempos normais.

Sem comentários:
Enviar um comentário