sexta-feira, 1 de maio de 2020

Primeiro de Maio.



É feriado porque o meu pai faz anos.
Como qualquer criança, se o meu pai dizia que era feriado porque era o dia do seu aniversário, é porque era verdade. Quando os outros meninos da escola me diziam que era o Dia do Trabalhador, só reforçavam a minha crença. O meu pai era trabalhador.


A semana que passou é a aquela sobre a qual não sei escrever sem ser piegas.  
Tudo porque o 25 de Abril é o meu dia preferido de todos os dias e porque o 1.º de Maio, para além de ser o dia do meu pai, é o dia em que a luta continua.

Olho para Salgueiro Maia que olha para a máquina fotográfica de Alfredo Cunha. Está em frente a uma chaimite no Largo do Carmo. Vejo o olhar mais meigo com que alguém encarou este país.
Comovo-me.

Penso em quem não pode estar em teletrabalho. Naqueles cujo trabalho está parado e naqueles cujo trabalho não pode parar. O Sérgio Godinho canta-me sobre a paz, o pão, a habitação, a saúde e a educação.
Comovo-me.

Oiço os passos que anunciam a Grândola, lembro-me de cravos vermelhos na lapela do casaco do meu pai, um bravo homem percorre a Avenida da Liberdade com a bandeira nacional, em cada varanda há um amigo a cantar. Um cravo repousa solitário numa jarra.
Comovo-me.

O sol de Maio leva os meus pés descalços para a relva em frente à casa dos meus pais. Dou um abraço longo ao meu pai como se dá aos aniversariantes. Depois de lhe cantarmos os Parabéns, ele desembrulha livros sobre a Revolução. Sempre as mesmas prendas. As que ele gosta mais.

Abro os olhos.
Comovo-me mais.
Parabéns.

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