É feriado porque o meu pai faz
anos.
Como qualquer criança, se o meu
pai dizia que era feriado porque era o dia do seu aniversário, é porque era
verdade. Quando os outros meninos da escola me diziam que era o Dia do
Trabalhador, só reforçavam a minha crença. O meu pai era trabalhador.
A semana que passou é a aquela sobre a qual não sei escrever
sem ser piegas.
Tudo porque o 25 de Abril é o meu dia preferido de todos os
dias e porque o 1.º de Maio, para além de ser o dia do meu pai, é o dia em que
a luta continua.
Olho para Salgueiro Maia que olha para
a máquina fotográfica de Alfredo Cunha. Está em frente a uma chaimite no Largo
do Carmo. Vejo o olhar mais meigo com que alguém encarou este país.
Comovo-me.
Penso em quem não pode estar em
teletrabalho. Naqueles cujo trabalho está parado e naqueles cujo trabalho não
pode parar. O Sérgio Godinho canta-me sobre a paz, o pão, a habitação, a saúde
e a educação.
Comovo-me.
Oiço os passos que anunciam a
Grândola, lembro-me de cravos vermelhos na lapela do casaco do meu pai, um
bravo homem percorre a Avenida da Liberdade com a bandeira nacional, em cada
varanda há um amigo a cantar. Um cravo repousa solitário numa jarra.
Comovo-me.
O sol de Maio leva os meus pés
descalços para a relva em frente à casa dos meus pais. Dou um abraço longo ao meu pai como se dá aos
aniversariantes. Depois de lhe cantarmos os Parabéns, ele desembrulha livros
sobre a Revolução. Sempre as mesmas prendas. As que ele gosta mais.
Abro os olhos.
Comovo-me mais.
Parabéns.

Sem comentários:
Enviar um comentário