Batatas e cebolas: podem-se
contar pelos dedos das mãos as vezes que as comprei. Sempre trouxe da minha
terra. Nos primeiros anos cultivadas pela enxada do meu avô. Depois de ele morrer
esse testemunho passou para as mãos do meu pai. Sempre da Várzea, com amor.
Dir-se-ia que, num frente a frente com os expositores do supermercado, eu
saberia escolher melhor. Mas só me sinto perdida na secção de legumes.
Só vou ao trabalho uma vez por
semana. Agora demoro exactamente nove minutos de carro até à Penha de França,
destronando assim os recordes de todos os Agostos. O tempo de ouvir duas
músicas e meia no rádio. As passadeiras sem ninguém para as atravessar e sem
trânsito parado no Terreiro do Paço. Um percurso desamparado na cidade
despovoada. Sempre na expectativa de ter um carro à minha frente e que esse
carro avarie ou vá abaixo para me subir à cabeça uma irritação. Assim conferiria alguma legitimidade a esta vontade de pôr o dedo na buzina e de dizer uns palavrões.
Todas as noites antes de ir
dormir dirijo-me à porta de casa para verificar se está com as voltas da fechadura
todas voltadas para o rio e se a corrente está bem colocada. Todas as noites
desisto antes de lá chegar. Fechadura que não foi aberta não pode estar mal
fechada.
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