De manhã é na Várzea. Depois da
missa o padre começa o Compasso. Vêm descendo desde a Torre, passam pelo
Carqueijal e, perto da hora do almoço, entram na Várzea. Os foguetes e a campainha
anunciam a sua passagem na ponte que marca a fronteira da povoação. Nesse
momento os cabritos entram nos fornos das cozinhas e as pessoas saem à rua, perfumadas
e com as roupas mais bonitas. À medida que o padre avança, cresce um cortejo
que canta a Aleluia. De casa em casa, a cruz entra nas salas para ser beijada
pelas famílias. As salas cheiram a cortinas lavadas e a chão encerado, com as
mesas com a melhor toalha de renda, a laranja maior da árvore e um prato de
amêndoas de tons esbatidos. Sai o padre e entram os amigos. Cada casa, cada
petisco. Cada casa, cada copo. Há-de ser assim até ao sol se pôr.
À hora de almoço cada um recolhe
a sua casa para almoços prolongados com o calor do forno e do vinho. Na casa
dos meus pais há sempre pão-de-ló e aletria. Há sempre comida a mais. Cada
prato é um abraço.
De tarde faz-se a volta da Póvoa
e do Arrabalde. Todos com mais alegria pela ressurreição e pelo álcool. Canta-se
mais e as conversas de já não te via há muito tempo são mais soltas e honestas.
Quando a minha avó Ermelinda era viva, em casa dela, havia sempre ovos cozidos
em casca de cebola. Às vezes o padre passava em casa dela já no lusco-fusco e ficávamos
à espera dele na cozinha para não desarrumar a sala. Naquela espera comíamos os
ovos que sabiam melhor por serem tingidos.
A Páscoa há-de acabar com o sino
da igreja da Torre a tocar para avisar que o padre voltou a casa e com uma
pequena multidão reunida à volta da mesa da Rosa e do Luís a cantar modinhas,
ora antigas ora mais actuais, com o ritmo marcado por notas de tinto e de
branco que se foi bebendo ao longo do dia.
Neste domingo de Páscoa que está
a findar quase nada disto aconteceu. Não houve roupa nova, nem Compasso. Porém, as
aldeias pequenas não se medem aos palmos. Não há vírus que as cale. Hoje, perto
da hora de almoço, juntou-se uma aldeia no Zoom. Ouviram-se foguetes, campainhas,
bebeu-se vinho branco, visitámos as casas uns dos outros e cantou-se a Aleluia.
A tradição já não é o que era mas resiste em novas versões.
Da minha parte, cozi ovos com
cascas de cebola. Era uma cebola tramada, daquelas que nos põem em lágrimas.
Aliás, foi por culpa dessa cebola em particular que hoje tive que enxugar os olhos
quando fui de banda larga passar a Páscoa a casa.

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