sexta-feira, 17 de junho de 2022

Camões.

 


Os pontos de encontro são sempre pontos de partida. O ponto onde coincidimos com alguém num tempo certo para depois seguirmos juntos, ou separados. Todas as cidades têm um ponto de encontro. Todas as cidades têm um ponto de partida. Todas as cidades têm um ponto de partida que começa num ponto de encontro.

 

O Camões é o ponto dos encontros de Lisboa. Ali, onde o Bairro Alto arranca para subir a colina, onde o Chiado começa a sua descida até à Baixa, onde a Rua do Loreto avança sobre o Combro e a Rua do Alecrim flutua até ao rio, cruzam-se os percursos. Dali se continua para novos trilhos. O Camões é o ponto de partida de Lisboa. Quem nunca marcou encontro ali para depois ir jantar ao Bairro Alto, desfilar na Rua Garrett ou ir beber um copo à Bica que atire a primeira pedra.

 

O Camões é o único nome da toponímia lisboeta a que, sendo uma praça, todos chamam largo. Quase ninguém vai à Praça de Luiz Vaz de Camões. Agora o Largo do Camões já todos atravessam. Ou por lá se encontram. É que assentar praça é diferente de passar ao largo. E ir chatear o Camões todos vamos de vez em quando, mas não por muito tempo. Que por norma no Camões não se está. Espera-se. Espera-se pelo amigo, pelo 28 ou pela sineta do pastel de nata. Faz-se horas para estar noutro lugar.

 

Boas esperas que alcançam o ritmo da cidade. O Eléctrico 28 a circundar a linda plataforma de calçada portuguesa. A estátua de Camões com pombas que revezam o poleiro da sua cabeça para espreitarem quem vem do Chiado. Os alunos de Erasmus a conviverem à volta do pedestal. A passadeira mais insubordinada de Lisboa em que os carros e os peões têm um acordo secreto para ignorar o semáforo. A conduta de ar que faz os vestidos das meninas esvoaçarem e os cabelos perderem o arranjo. Os prédios pombalinos com as fachadas limpinhas. Os encontros e as partidas. Os olás e as despedidas. Cada metro quadrado, um postal. Cada transeunte, um poema.

 

A Praça de Luiz Vaz de Camões foi inaugurada em 9 de Outubro de 1867. A estátua e o pedestal do poeta têm 7 metros e meio, são da autoria de Victor Bastos e foram custeadas por subscrição pública. Nesse dia, toda a Lisboa foi ali dar. Até os trabalhadores das fábricas da capital tiveram folga para ir ver El-Rei D. Luís descerrar o pano que cobria a grande figura de bronze.

 

 

Desde então o poeta da nação tem visto lá do alto a cidade a mudar. Mudam as modas e os costumes, mudam os transportes, os sons, os comércios e os cheiros. Chegam os turistas e partem os habitantes. Mas Lisboa, que da lei da morte já se libertou há muito tempo, continua circulando num vai e vem de gente que, mais tarde ou mais cedo, há-de ir ter à hora marcada ao Camões.

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