quinta-feira, 21 de maio de 2020

Das máscaras.



Sempre pensei em máscaras como objectos transitórios. Agora, durante uns momentos, escondo o meu rosto porque quero fingir que sou outro. Temporárias e ocasionais, disfarçam e dissimulam. Ou simulam.

A transitoriedade já não é o que era. Agora as máscaras servem para transitarmos entre nós. São separadores de pessoas e bloqueadores de expressões.
Agora, durante uns tempos, protejo-me daquilo que anda aqui no ar entre tu e eu.

Os olhos afinal não são o espelho da alma porque não mostram tudo. Há olhos que sorriem e olhos que se espantam. Mas nunca saberemos em que estado estão as almas se não virmos o seu reflexo a corpo inteiro. Como os lábios se movem, como o nariz se franze, como as bochechas oscilam e como o queixo sobe.

 Como poderemos agora deitar a língua de fora a alguém? Sorrir com os dentes todos ou ficar boquiaberto não vale nada nos dias que correm.
É certo que franzir o sobrolho será sempre tido em conta, mas, como distinguiremos as lágrimas de crocodilo das genuínas?

Como em tudo, há vantagens. As emoções estão previamente escondidas e não temos que andar por aí a oferecer sorrisos amarelos. Podemos sempre fingir que não reconhecemos alguém, evitando conversas indesejadas, e estamos sempre preparados para fazer um assalto.

Quem vê máscaras não vê corações. Passaremos os próximos tempos a falar com estranhos.


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