Já lá vai meio ano e mais três dias.
Está a ser muito difícil e ainda assim é mais fácil do que a minha imaginação me fazia prever. Como quase sempre na vida.
A imaginação é uma exagerada.
Já lá vai meio ano e mais três dias.
Está a ser muito difícil e ainda assim é mais fácil do que a minha imaginação me fazia prever. Como quase sempre na vida.
A imaginação é uma exagerada.
Não sinto falta de estar a fumar. Já consegui até ficar a ver as estrelas no 15 de Agosto ou sentar-me a beber um café numa esplanada e obrigar-me a ficar uns 10 minutos ali sentada a ver o mundo a passar.
Ainda sinto falta de dividir os meus dias em pausas para cigarros.
Não será ao acaso que pausas e passas são
palavras tão parecidas.
Deixei de fumar e deixei de me sentir.
Faz hoje um mês que deixei de fumar. Piso areias movediças
ao escrever sobre isso. Piso areias movediças só por estar a escrever. Não me
lembro de mim a escrever sem ser fumadora. Nunca fui escritora, mas fui, 30 anos, fumadora.
Dizem-me que serei sempre fumadora.
Nenhuma palavra me define tão bem como fumadora.
Fumadora.
Lisboeta que é lisboeta péla-se
por um peixinho fritinho com um arrozinho malandrinho. Assim tudo em
diminutivos. Quanto mais pequenininho melhor. Daqueles peixinhos que não chegam
para tapar a cova de um dente e com nomes que podiam ter sido dados por meninos
que aprenderam a falar há pouco tempo. Ele é pilim, jaquinzinho, petinga,
carapauzinho e pescadinhas de rabo na boca.
Comem-se de meia dentada, com
cabeça e espinha incluídas e acompanham com um arroz de tomate, de feijão ou de
grelos a correr pelo caldo. Uma taça de vinho e está composto um dos repastos
mais tradicionais da cidade.
Porém, estes lisboetas são uns
criativos, e, há uns séculos, quando o peixe não era para qualquer mesa, criaram
uma alternativa mais em conta que se tornou divisa da culinária alfacinha.
Chamam-lhe peixinhos da horta.
De acordo com os Doze Meses de
Cozinha, uma das bíblias culinárias que há na estante da minha mãe, os
peixinhos da horta são dois feijões-verdes fritos envoltos num polme de farinha,
gema de ovo, claras em castelo, sal e pimenta. Lembro-me de ser miúda e folhear
aquelas páginas de papel de boa gramagem e fotografias apetecíveis e pensar que
um dia faria aqueles tais de peixinhos da horta. Coisa que ainda não aconteceu.
Se parafraseamos Camões tantas
vezes dizendo que Portugal deu novos mundos ao mundo, também é incontestável
que levámos novos sabores aos quatro cantos do planeta. Maria de Lourdes
Modesto atesta que no século XVI, quando chegaram os primeiros Jesuítas
portugueses ao Japão, encontraram um povo que não percebia nada de fritos.
Quando chegou a Quaresma, os missionários respeitaram o período de abstinência
de carne e lá fritaram uns jaquinzinhos e uns peixinhos da horta que deram a
provar aos japoneses. E não é que eles gostaram?
O sucesso foi tal que originou um
dos pratos japoneses mais afamados. A tempura come-se hoje em todo o lado. O
nome vem da expressão latina que designa a Quaresma, ad tempora
quadragesimae, que os portugueses naquela época tinham simplificado para
Têmporas. E se os japoneses diversificaram a utilização do polme delicioso em
vários outros alimentos, a verdade é que não fazem tempura com carne.
Cá por Lisboa, ovo e farinha só se
põem à volta do que é pescado. Refeição que é refeição dá aos vegetais o papel
secundário e deixa brilhar o peixe. Nem que seja o peixinho da horta.
O Camões é o ponto dos encontros
de Lisboa. Ali, onde o Bairro Alto arranca para subir a colina, onde o Chiado
começa a sua descida até à Baixa, onde a Rua do Loreto avança sobre o Combro e
a Rua do Alecrim flutua até ao rio, cruzam-se os percursos. Dali se continua
para novos trilhos. O Camões é o ponto de partida de Lisboa. Quem nunca marcou
encontro ali para depois ir jantar ao Bairro Alto, desfilar na Rua Garrett ou
ir beber um copo à Bica que atire a primeira pedra.
O Camões é o único nome da
toponímia lisboeta a que, sendo uma praça, todos chamam largo. Quase ninguém
vai à Praça de Luiz Vaz de Camões. Agora o Largo do Camões já todos atravessam.
Ou por lá se encontram. É que assentar praça é diferente de passar ao largo. E
ir chatear o Camões todos vamos de vez em quando, mas não por muito tempo. Que
por norma no Camões não se está. Espera-se. Espera-se pelo amigo, pelo 28 ou
pela sineta do pastel de nata. Faz-se horas para estar noutro lugar.
Boas esperas que alcançam o ritmo
da cidade. O Eléctrico 28 a circundar a linda plataforma de calçada portuguesa.
A estátua de Camões com pombas que revezam o poleiro da sua cabeça para
espreitarem quem vem do Chiado. Os alunos de Erasmus a conviverem à volta do
pedestal. A passadeira mais insubordinada de Lisboa em que os carros e os peões
têm um acordo secreto para ignorar o semáforo. A conduta de ar que faz os
vestidos das meninas esvoaçarem e os cabelos perderem o arranjo. Os prédios
pombalinos com as fachadas limpinhas. Os encontros e as partidas. Os olás e as
despedidas. Cada metro quadrado, um postal. Cada transeunte, um poema.
A Praça de Luiz Vaz de Camões foi
inaugurada em 9 de Outubro de 1867. A estátua e o pedestal do poeta têm 7
metros e meio, são da autoria de Victor Bastos e foram custeadas por subscrição
pública. Nesse dia, toda a Lisboa foi ali dar. Até os trabalhadores das fábricas
da capital tiveram folga para ir ver El-Rei D. Luís descerrar o pano que cobria
a grande figura de bronze.
Desde então o poeta da nação tem
visto lá do alto a cidade a mudar. Mudam as modas e os costumes, mudam os
transportes, os sons, os comércios e os cheiros. Chegam os turistas e partem os
habitantes. Mas Lisboa, que da lei da morte já se libertou há muito tempo,
continua circulando num vai e vem de gente que, mais tarde ou mais cedo, há-de
ir ter à hora marcada ao Camões.
E que mais há para escrever sobre a pandemia?
Agora que a vacina já está aí a ser inoculada em força e que quase podemos voltar a respirar fundo, escrevo sobre o quê?
Não que eu tenha escrito tudo aquilo em que pensei e tenha abordado todos os temas e ângulos. Porém estou farta. Estamos todos fartos. Já não tem piada e já não nos comove. Basta.
Somos todos melhores padeiros, temos vasos de plantas verdejantes em todas as divisões, um tomateiro na varanda e as cuecas estão ordenadas por cores dentro das gavetas da cómoda.
Preferimos as máscaras cirúrgicas e damos primazia ao álcool sem gel. Ninguém gosta do cheiro do desinfectante das bombas da Repsol.
Continuo. Recolho textos antigos, vou aos velhos cadernos, pego em frases que andam soltas em costas de contas de supermercado e em blocos de notas do telemóvel e continuo.
Continuo.
Àqueles que se preparam para votar no candidato troca-tintas,
peço que façam desse acto um instante inesquecível das vossas vidas. Fixem-no.
Apontem na vossa memória o dia em que agarraram no vosso sentido de humanidade
e o esconderam no fundo de uma gaveta.
Que a memória não vos falhe.
Para aqueles que resolveram perder a vergonha e dizer que não
têm vergonha de aceitar ideias vergonhosas, peço que guardem o momento. Mais
tarde, quando nem conseguirem olhar-se ao espelho, saberão qual foi o exacto
momento em que, de acordo com as categorias criadas pelo candidato troca-tintas,
deixaram de ser portugueses do bem.
Que a memória não vos falhe.
Quando a cruz que colocarem no racista, xenófobo, machista, misógino,
homofóbico, fascista, mentiroso, populista, rasteiro e troca-tintas, só para
lembrar, vos pesar na consciência, lembrem-se que foram vocês que a traçaram.
Que a memória não vos falhe.
Todos os anos é uma surpresa. Numa manhã de uma quinta-feira de Maio a convocar Verão e manga-curta, saio à rua e por todo o lado andam pess...